Pedaços de Mim
Precisava juntar meus pedaços, escolhi as palavras...
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Textos



EU E DRUMMOND
 
    Quando encontrei Carlos Drummond - nosso poeta mineiro - a primeira vez tinha uma pedra no meio do caminho. Foi por causa dessa pedra que o conheci e o achei meio maluco com aquele sorriso intrigante e aquelas palavras que se repetiam sete vezes em dez versos. Então “nunca me esquecerei que no meio do caminho tinha uma pedra”.  Como esquecer? Não é sem razão que tenha se tornado um escândalo literário a sua pedra no meio do caminho.
    Foi interessante conhecê-lo com aquele sentimento de mundo todo seu, dizendo que no meio do caminho tinha uma pedra. Ele sorria e me repetia que no meio do caminho tinha uma pedra. Quase fiquei doida, mas conversamos longamente sobre a pedra no meio do caminho e hoje percebo que, apesar das duras críticas sofridas em razão das repetições, o fato é que Drummond estava certo: nos caminhos das pessoas sempre existem pedras que dificultam o caminhar e elas se repetem ao longo do trajeto. O poema é só uma constatação escrita, talvez, porque ele mesmo havia encontrado várias delas na vida de suas retinas fatigadas. Ele não me contou nada, mas eu sei, senão não teria ele feito dessa pedra algo tão dramático.
    Assim caminhamos entre as pedras – eu e Drummond –verso após verso. Sem rimas. Eu achava tudo estranho. As pedras e a falta de rima em um poema. Hoje percebo que isso pouco importa porque a poesia está é na essência. Ou melhor, está no olhar poético sobre as coisas. Por isso a pedra no meio do caminho se transformou em poesia em 1928 e desde então ela se tornou, talvez, menos dura. Culpa de Drummond e por isso lhe agradeço. Agradeço porque foi depois da pedra no meio do caminho que mergulhei em seu sentimento de mundo, aquele em que ele diz que quando se levantasse, o céu estaria morto e saqueado e, ele mesmo estaria morto junto com seu desejo...
      Foi depois também da pedra no caminho, que conheci o seu Poema da necessidade e, que é preciso muitas coisas, inclusive, que é “preciso ter mãos pálidas e anunciar o fim do mundo”. Também foi depois da pedra no caminho que conheci o Menino chorando na noite “na noite lenta e morna, morta noite sem ruído” e o menino chorando atrás da parede, da rua, em outra cidade, outro mundo... Conheci, inclusive, depois da pedra no caminho o Morro da Babilónia, as vozes que descem e criam o terror urbano e, ao mesmo tempo, o som do cavaquinho afinado, dominando os ruídos das pedras e das folhagens. E conheci — pasmem — os Mortos de sobrecasaca no velho álbum de fotografias intoleráveis e indiferentes, cujas dedicatórias foram roídas pelo verme.
     Depois da pedra no caminho Drummond me fez conhecer também o Privilégio do mar e garantiu-me que nas águas tranquilas só há marinheiros fieis. Quando me mostrou a Canção de berço, afirmou que o amor, a carne, a vida, os beijos, não tem importância. Afirmou-me que só a “estrela guardará o reflexo do mundo esvaído” apesar de o mundo ser também sem importância.
     Enquanto eu folheava seu sentimento de mundo Drummond falou-me com seu sorriso compreensivo que Os ombros suportam o mundo e, fiquei pensando que Drummond exibia certa negatividade. De fato havia pessimismo em seus versos, embora muito de esperança em razão da realidade do momento que era a guerra mundial. Então ele estava certo. Na verdade, segundo críticas ele era acima de tudo solidário e compreensivo com a realidade. Era realista em seus poemas, pois de fato, chega-se um tempo que, segundo ele é de pura depuração. Já não se pede nada, não se espera nada. Não importa a velhice. Tudo é inútil e o mundo “não pesa mais que a mão de uma criança”. Drummond estava certo. Por isso, talvez, em Mãos dadas ele me garantiu que não seria o poeta de um mundo caduco e nem cantaria o mundo futuro porque o tempo era sua matéria, “o tempo presente, os homens presentes” e, com Dentaduras duplas, ele mastigaria a carne da vida com a calma que Bilac não teve para envelhecer.
    Ah! Assim é Drummond, pois sabe que A noite dissolve os homens tremenda, sem esperança [...] mortal, completa, sem reticências [...] enquanto fugimos para outros mundos” com a Lembrança do mundo antigo onde certamente o “céu era verde sobre o gramado [e] a agua era dourada sob a ponte”.
    Seria tudo isso o motivo das pedras no caminho? Não sei de fato. Drummond não me confessou explicitamente, mas em Mundo grande, ele afirmou que seu coração era bem menor e que não cabia todas as suas dores e nem os homens todos, e, que deveria ter escutado “os anjos, as sonatas, os poemas, as confissões patéticas...”
    Sorrindo e olhando-me nos olhos disse ainda: “fecha os olhos e esquece/ escuta a água nos vidros,/ tão calma. Não anuncia nada/ entretanto escorre nas mãos”. E eu senti que escorria até que conheci Noturno à janela do apartamento e nele o “silencioso cubo de treva [...] a contemplação de um mundo enorme e parado [...] na escuridão absoluta”. “Um salto, e seria a morte,” não fosse a pedra no caminho que ainda martelava minha cabeça mesmo depois de inebriar-me com Drummond no Brinde do juízo final, quando ele anunciava aos poetas de camiseiro que havia chegado a sua hora, os sobreviventes...
    Quando cheguei ao final de seu Sentimento de mundo eu havia encontrado implicitamente a pedra no meio do caminho, — sob meu ponto de vista — repetidamente, mais que as sete vezes do seu poema de ribalta. E mais dura, talvez, no último verso de Noturno à janela do apartamento de onde avistava “o triste farol da ilha Rasa”.
     E quando olhei para Drummond, para seus olhos detrás dos óculos de grossa armação, ele sorria seu sorriso maroto e mineiro e, eu acreditei que sim, que a pedra no caminho sempre existirá enquanto se pronunciar seu nome. Existirá real e clássica em qualquer sentimento de mundo.
      “Adeus princesa, até outra vida”. Falou-me Drummond e sua pedra bateu em minha mente.
 
 

 
Justificativas
 
 > Em Eu e Drummond utilizei grifos e paráfrases dos poemas da Edição de bolso de Carlos Drummond “Sentimento de Mundo”. As palavras em vermelho são justamente o título dos poemas desse volume que eu me apaixonei depois da pedra no caminho. Foi justamente a pedra no caminho que me fez comprar esse volume apaixonante em 2014. Essa crônica é um jeito meu de pensar em Drummond. Espero que gostem de meu conto que fala um pouco de Drummond. Até mais...


> Para saber mais sobre essa Edição Sentimento de Mundio clique aqui: http://www.culturagenial.com/livro-sentimento-do-mundo-de-carlos-drummond-de-andrade/

> E para conhecer o poema da pedra no caminho clique aqui:http://www.letras.mus.br/carlos-drummond-de-andrade/807509/
> A imagem eu editei no Power point

> Referencias
ANDRADE, Carlos Drummond. Sentimento de Mundo. 1ª Edição. São Paulo. Companhia das Letras. 2012.

 

Sonia de Fátima Machado Silva e Carlos Drummond de Andrade
Enviado por Sonia de Fátima Machado Silva em 28/07/2019
Alterado em 28/07/2019
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