Pedaços de Mim
Precisava juntar meus pedaços, escolhi as palavras...
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       Um dia qualquer de 2018 me encontrei com Tomás Antônio Gonzaga na livraria online Saraiva. Juro que jamais esperava encontrá-lo ali depois de tanto tempo. Ou melhor, que jamais o encontraria de novo nessa vida. Mas ele, assim que me viu, do meio das prateleiras infindáveis  veio ao meu encontro. Louro, olhos azuis, baixo, meio gordo e calvo... Vestia uma casaca e calça típica de cor forte. Se não me engano, na cor vinho. Rendas nos punhos e pescoço como era de praxe o seu tempo e a sua vaidade que se importava mais com roupas e livros do que posses. Sorriu-me num ímpeto sedutor e até uma ponta de vigarice. Tomás era assim e certamente se lembrara que nos conhecemos nos bancos da escola e sabia, certamente que eu havia me tornado poeta e que já era hora de conhecer suas outras liras e não apenas  a lira XXXVII : Meu sonoro passarinho...  
       Confesso que quase cai de costas. Um passado assim me encontrando de cheio... Realmente tem coisas que não ficam apenas nos bancos da escola.  O tempo não apaga. Mas ele com aquela cara, não de jurista e ativista político luso-brasileiro, mas de poeta  casquilho e peralta logo apertou minhas mãos trêmulas me entregando a Edição de Bolso de capa verde “ Marília de Dirceu”.
       Sim , Tomás me oferecia sua arte poética. Ele, o importante cultor do arcadismo encarnado em Dirceu e pegureiro. E me sorri já entrando pela gramatiquisse de suas doces liras rigorosamente métricas à amada encarnada em Marília, a bela pastora a quem devota o amor mais puro e de certa forma impossível.
Então ele me olhou nos olhos  simplesmente me disse: 

Os teus olhos espalham luz divina,
A quem a luz do Sol em vão se atreve:
Papoula, ou rosa delicada, e fina,
Te cobre as faces, que são cor de neve.
Os teus cabelos são uns fios d'ouro;
Teu lindo corpo bálsamos vapora.
Ah! Não, não fez o Céu, gentil Pastora,
Para glória de Amor igual tesouro.
Graças, Marília bela,
Graças à minha Estrela!

      Por um tempo eu me envolvi naquele gosto sentimental erudito, sensorial e melancólico  e  só então nos sentamos longamente e, entre uma lira e outra, relembramos de quando o conheci. Se não me engano eu tinha nove anos e fazia a terceira série numa escola rural. Foi por volta de 1971 ou 1972. Na escola, tínhamos a disciplina de Estudos Sociais ou Educação Moral e Cívica, não lembro direito, mas lembro como se fosse hoje quando aprendi a história dos inconfidentes indignados com os abusos da Coroa Portuguesa: Alvarenga Peixoto, Claudio Manoel da Costa, Tiradentes e Tomás Antônio Gonzaga. Eram os principais. Ou os que eu consegui guardar na lembrança.  Tomás na época era ouvidor-geral de Vila Rica, provedor do juízo de defuntos, ausentes, capelas e resíduos. O segundo cargo mais importante no comando da capitania. Além de ser todos esses cargos ele também escrevia seus poemas.
      De repente ele me olhou tão triste e me contou que a história era muito diferente da que me contaram na escola. Disse que os que apareciam na história eram os mais inocentes, embora não inocentes para a Coroa Portuguesa. Contou-me que Tiradentes morreu como líder da Inconfidência, mas o cabeça nunca apareceu de fato, pois fazia parte da elite. Quanto a ele foi mandado para o exílio deixando tudo para trás e até sua amada. Olhando em teus olhos azuis eu lhe contei que a realidade no Brasil não estava muito diferente agora. Que os impostos são exorbitantes  e que da mesma forma ansiamos por uma liberdade que certamente nunca virá enquanto a política pensar apenas em seus interesses. E lhe agradeci, inclusive pelos ideais que plantara no coração do povo. Agradeci pela luta em favor do Brasil e, ao mesmo tempo pedi desculpas, pois, na verdade, o que me marcou não fora o fato de ele ter sido inconfidente, pois sempre detestei coisas ligadas à política. Mas me marcara o fato se ser poeta, e fora os seus versos que ficaram em minha lembrança. Ele sorriu de novo com seu jeito casquilho.
        Quando fechei o livro de bolso de capa verde com o título” Marília de Dirceu” ele se levantou e se foi.  Em minhas mãos ficou  o texto integral de suas obras: Belas liras a Marília, sua amada; alguns belos sonetos e o imortal poema que havia ficado em minha memória desde os nove anos. Tudo dotado de uma técnica impressionante e trazendo à tona toda a espontaneidade que Tomás tinha. No fundo um homem apaixonado por ideias e uma mulher bem mais jovem e tendo entre si o tempo e uma situação ameaçadora .
      Na verdade eu nem acreditei que eu o havia encontrado depois de tantos anos. Era destino? Era, eu sei que era. Porque ele era poeta e nos bancos toscos da escola também já vivia uma menina poeta que recitava com entusiasmo:

 
“Meu sonoro Passarinho,
Se sabes do meu tormento,
E buscas dar-me, cantando,
Um doce contentamento,
 
Ah! não cantes, mais não cantes,
Se me queres ser propício;
Eu te dou em que me faças
Muito maior benefício.
 
Ergue o corpo, os ares rompe,
Procura o Porto da Estrela,
Sobe à serra, e se cansares,
Descansa num tronco dela,
 
Toma de Minas a estrada,
Na Igreja nova, que fica
Ao direito lado, e segue
Sempre firme a Vila Rica.
 
Entra nesta grande terra,
Passa uma formosa ponte,
Passa a segunda, a terceira
Tem um palácio defronte.
 
Ele tem ao pé da porta
Uma rasgada janela,
É da sala, aonde assiste
A minha Marília bela.
 
Para bem a conheceres,
Eu te dou os sinais todos
Do seu gesto, do seu talhe,
Das suas feições, e modos.
 
O seu semblante é redondo,
Sobrancelhas arqueadas,
Negros e finos cabelos,
Carnes de neve formadas.
 
A boca risonha, e breve,
Suas faces cor-de-rosa,
Numa palavra, a que vires
Entre todas mais formosa.
 
Chega então ao seu ouvido,
Dize, que sou quem te mando,
Que vivo neta masmorra,
Mas sem alívio penando. “

 
 



imagem do livro MARÍLIA DE DIRCEU- poemas de Tomás Antônio Gonzaga que comprei em 2018.




 



FONTE DE PESQUISAS E REFERÊNCIA . Doria, Pedro.1789 : a história de Tiradentes, contrabandistas, assassinos e poetas que sonharam a Independência do Brasil. - 1. ed. - Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2013.


 












 
Sonia de Fátima Machado Silva e Tomás Antônio Gonzaga
Enviado por Sonia de Fátima Machado Silva em 13/07/2020
Alterado em 13/07/2020
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