Pedaços de Mim
Precisava juntar meus pedaços, escolhi as palavras...
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Textos

 
EU E FERNANDO PESSOA
 
Avistei Fernando Pessoa de longe em meio às prateleiras da Livraria Online Saraiva. Não o conhecia muito bem, senão pelo poema Autopsicografia que muito me intrigava.
—Oi.  Cumprimentei-o meio envergonhada ao me aproximar e fingir passar adiante. Explico: o meio envergonhada se deve ao fato de que, às vezes, a carapuça nos serve. Carapuça? Sim, porque Fernando Pessoa ao afirmar que poeta finge, estava incluindo eu também.
Mas dei meia volta e retornei sorrindo até onde ele estava. Sabe aquele sorriso que a gente só levanta um dos cantos dos lábios? Então... Parei. Aquela vontade incrível de encarar o poeta fingido bem nos olhos.
Bem, eu estava ali diante dele — meados de 2014, o meu ano poético—e ele me olhando por cima de seus óculos que, de tão translúcidos não escondiam suas espessas sobrancelhas. Uma das mãos segurava a aba do chapéu tipo fazendo uma mesura e, assim como eu, ensaiava um riso no canto dos lábios. No caso dele, o bigode que formava um triângulo perfeito praticamente escondia esse riso.  Na verdade representava um tipo, assim meio certinho, mas claro, só não era mais certinho porque precisava se esconder atrás de seus inúmeros heterônimos, algo que me encucava, além do fato de ter dito que poeta é um fingidor; ou que não tinha filosofia, apenas sentidos; que pensar é não compreender e muitas outras coisas, que, no fundo, concordo plenamente.
Então ficamos assim longo tempo: o poema Autopsicografia entre nós, cujo contexto era mais denso que o fato de ser um poema. Finalmente ele quebrou o silêncio e me perguntou se o conhecia. Respondi que sim e confessei que era por causa desse dito poema e então ele disse rindo abertamente — Ah, então não me conhece...  Eu, meio sem graça, entendi na hora que o poema tinha mais nas entrelinhas do que eu podia supor.
— O que te faz supor que me conhece? Perguntou-me levantando uma das sobrancelhas espessas e eu, meio sem jeito tentei justificar — Bem, não sei exatamente... Talvez o fato de você ter tirado a máscara do poeta, ou o fardo. Acho que foi o fardo. Sim, foi. E eu gostei disso. Imagine se o poeta vivesse tudo que escreve? Amores, saudades, lembranças, dores... Não dá. É uma carga pesadíssima.
Ele riu demoradamente olhando-me nos olhos e disse:
— Huumm, preciso te explicar muitas coisas. Mas o poeta vive tudo isso sim como qualquer outra pessoa e muito mais, talvez. E quando falei que poeta é um fingidor, quis apenas dizer que o poeta exagera aquilo que fala, subverte muitas coisas para tocar quem lê. Ele faz de uma simples dor, por exemplo, uma dor tamanha que chega a ser acreditável. Aliás, um poeta, além de fingidor, possui muitas personalidades.
Olhei-o assustada.
— Sério? Por isso criou seus heterônimos? Cada um deles representa uma personalidade sua e ai você escreve conforme os sentidos dessa personalidade. É isso? Essa é a gênese de seus heterônimos?
— Menina poeta vou repetir para você o que falei para Adolfo Casais em 1935 numa longa carta.  Essa gênese tem uma origem psiquiátrica e orgânica não posso negar. Desde criança eu tinha essa mania de criar mundos fictícios, amigos irreais.  Sabia que criei meu primeiro heterônimo quando tinha seis anos? Era um tal de Chevalier de Pas que escrevia cartas para mim.  Confessou-me com ar saudoso.
— Essa tendência para a despersonalização e para a simulação, veio me seguindo para a maioridade e foi assim que criei minhas personalidades literárias. Por quê?  Porque em cada uma eu colocava algo de mim, uma filosofia, um modo de pensar, sem misturar. Vou te confessar, sempre tive espírito de hesitação e dúvida.  
Eu estava admirada em como uma pessoa encontra uma forma diferente de expor o que vai dentro de si.
— Fale-me de seus heterônimos. Pedi.
Suspirando ele prosseguiu:
 — Tudo bem. Vou começar com Alberto Caieiro. Nele, eu te digo, coloquei todo o meu poder de despersonalização dramática, o bucolismo, o lírico. Sem necessidade de pensar. Para Caeiro, “tudo é como é”...  Já ouviu minha célebre frase “não tenho filosofia, apenas sentidos? Pois então é justamente isso. Menina, menina, o pensamento filosófico nos impede de ver o real, de sentir... Concorda? Eu fiz que sim com a cabeça e ele prosseguiu:
─A sensação é a única realidade. Veja a estrofe do poema “Guardador de Rebanhos” e concordará ainda mais. Disse ele com ar sério.
 
Sou um guardador de rebanhos.
O rebanho é os meus pensamentos
E os meus pensamentos são todos sensações.
Penso com os olhos e com os ouvidos
E com as mãos e os pés
E com o nariz e a boca.
 
— E Ricardo Reis? Qual a sua personalidade? Perguntei cada vez mais admirada e curiosa
— Huumm, Ricardo Reis? Ah! Nele eu coloquei a minha disciplina mental, vestida da música que lhe é própria. Respondeu com certo ar enigmático. Acho que para me deixar confusa. Eita poeta fingidor. Então o olhei assustada tentando compreender e, ele, com seu jeito de homem convicto de que hoje é um sonho, se justifica.
— Sim, a disciplina mental tem uma música própria não sabia? Pense: regras, regras e regras...  Falou estalando os dedos diante de meu olhar questionador. Mas eu sabia que ele estava certíssimo, pois eu havia estudado sobre questões de disciplina em minha graduação em Pedagogia.
Ele prosseguiu:
—Bem, eu criei Ricardo Reis quando escrevi os "Poemas de Índole Pagã”. Todos nós temos dentro de nós algo relacionado à mitologia e Ricardo Reis se identificava com clássicos mitológicos da Antiguidade, como Epicuro, por exemplo, filósofo da Grécia Antiga, cuja doutrina defendia a tranquilidade da alma através de três regrinhas: não temer a morte, única certeza da vida: fugir da dor colocando a razão acima da emoção e, viver o melhor possível o presente com os prazeres simples, evitando desejos impetuosos, violência, angústia, paixões eróticas ou políticas... Resumindo, então, Ricardo Reis refletia em seus versos o usufruir o momento. Veja o poema “Amo o que Vejo”
 
Amo o que vejo porque deixarei
Qualquer dia de o ver.
Amo-o também porque é.
 
No plácido intervalo em que me sinto,
Do amar, mais que ser,
Amo o haver tudo e a mim.
 
Melhor me não dariam, se voltassem,
Os primitivos deuses,
Que também, nada sabem.
 
Fernando pessoa ao me ver abrir a boca, pois estava extasiada, já foi logo dizendo:
— Eu sei que concorda comigo e antes que me pergunte já vou logo falando de Álvaro de Campos, meu mais importante heterônimo, pois nele coloquei tudo de mais histérico que existia em mim. Inclusive, toda a emoção que não dava nem a mim e nem à vida. Arregalei os olhos e diante de meu olhar cada vez mais questionador foi logo se justificando:
— Sim, Álvaro de Campos foi meu heterônimo de espírito Decadentista, com seus poemas que exprimiam o tédio, o cansaço e a necessidade de novas sensações. Foi meu heterônimo de espírito Futurista ao celebrar em seus poemas o triunfo da máquina e da civilização moderna, mas, ao mesmo tempo, a neurastenia provocada pelo progresso. Foi meu heterônimo Sensacionista ao revelar em sua poesia a vivência em excesso das sensações, o “Sentir tudo de todas as maneiras”... E para terminar, Álvaro de Campos foi meu heterônimo Intimista e Pessimista, em cujos versos refletia o ser incompreendido que sofre fechado em si mesmo, angustiado e cansado. Ah! Menina, um ser inadaptado ao mundo à volta, marginalizado, temperamento rebelde e agressivo, a personalidade do não. Não negue que você também tem um pouco de todas essas personalidades. Todo poeta tem.
Concordei com a cabeça e, depois de certo silêncio Fernando Pessoa continuou: — Álvaro de campos colocava em seus poemas sua revolta, a análise crítica de si mesmo para compreender o caos em que vive a humanidade. Veja esse trecho do poema “Ode Triunfal”
 
Ò rodas, ó engrenagens, r-r-r-r-r-r eterno!
Forte espanto retido dos maquinismos em fúria!
Era fúria fora e dentro de mim,
Por todos os meus nervos dissecados fora,
Por todas as papilas fora de tudo com que eu sinto!
Tenho os lábios secos, ó grandes ruídos modernos,
De vos ouvir demasiadamente de perto,
De vos ouvir demasiadamente de perto,
E arde-me a cabeça de vos querer cantar com um excesso
De expressão de todas as minhas sensações,
Com um excesso contemporâneo de vós, ó máquinas! (...)
 
Eu admirava e compreendia cada vez esse poeta português que justificava para mim as razões de sua heteronímia, o que justificava também o seu poema Autopsicografia. Mas ainda tinha o seu semi- heterônimo e eu precisava saber:
— E Bernardo Soares? Porque você o definiu como semi- heterônimo?
 — Ah! Bernardo Soares... Disse revirando os olhos e descansando em uma das pernas o peso do corpo, ao mesmo tempo em que levantava um pouco a aba do chapéu. — Ele era um prosador e o defini semi porque ele não era totalmente minha personalidade, embora não fosse diferente. Eu diria que era uma mutilação de minha personalidade. Então vais me perguntar por quê? E eu respondo: Bernardo Soares era eu menos o raciocínio e afetividade. E riu com gosto e então eu perguntei:
— Foi por isso que escreveu o “Livro do Desassossego”? Ele me encarou e respondeu:
— Eh! Talvez. Foi escrito em forma de fragmentos.  Os meus, quem sabe... Pois certamente é o que sou ao ter criado tantos heterônimos.  Eu diria que o livro é um depósito da fragmentária tristeza minha, meu sofrimento de suspensão existencial.  Alguém que está por detrás de todos os outros.
 — Se escondendo? Perguntei.
— Eh! Pode ser.  Mas também pode ser se expondo. Respondeu ele. — Somos todos assim. Aliás, o poeta é assim. Você devia saber.  E riu. Eu também ri e balancei a cabeça concordando. Então ele ainda acrescentou:
— Mas posso dizer também que o livro são fragmentos de justificativas. Olhei-o interrogativa e ele balançou o dedo no ar dizendo:
— Sim, justificativas. Pois não foi o que fiz ao explicar, no fragmento 260 o poema do poeta fingidor? Menina, preste atenção, sei que morre de vontade de compreender meus versos, então lhe digo: “A arte consiste em fazer os outros sentir o que nós sentimos [mas] o que sinto, na verdadeira substância [...] é absolutamente incomunicável; e [...] para que eu, pois, possa transmitir a outrem o que sinto, tenho que traduzir os meus sentimentos na linguagem dele [e], que ele, lendo-as, sinta exatamente o que eu senti. [Então] o que, afinal, tenho que fazer é converter os meus sentimentos [...] ainda que pervertendo a verdadeira natureza daquilo que senti”. você me entende?
— Sim, penso que entendi. Respondi. — Para a arte não importa a verdade fundamental, mas, a verdade subjetiva, ou seja, aquela do interesse e da emoção não é? O que importa é que ela liberte o artista e as pessoas que a admiram de si mesmos e vá além de seus limites individuais. Huumm, algo como dramatizar os sentimentos? Agora entendo que uma simples dor, num poema, por exemplo, nem ia ser sentida pelo outro. Então tem que ser uma grande dor, mesmo que na realidade não seja. Então o poeta transcende ao escrever e, com isso, leva quem lê a transcender também. Uau, isso é o máximo. Então o poeta não finge de fato, apenas subverte a verdade.  Fernando Pessoa bateu em meus ombros e disse:
— Isso mesmo cara menina. Agora me sinto justificado e, com isso justifico todos os poetas.
 E então, sorrindo abertamente, disse que precisava partir, não sem antes me entregar sua Antologia Poética em Edição de bolso, que eu segurei em minhas mãos para sempre.  Então ele deu alguns passos e parou novamente. Olhando-me nos olhos disse:
— Ei menina, não esqueça:
 
“O poeta é um fingidor
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.
 
E os que lêem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm.
 
E assim nas calhas de roda
Gira, a entreter a razão,
Esse comboio de corda
Que se chama coração.



 



Olá caros amigos recantistas, boa tarde. Hoje voltei com a série EU E ELES. Peço desculpas pelo texto longo de hoje, mas confesso que foi impossível escrever menos porque a vida de Fernando Pessoa é muito intensa e cheia de histórias e curiosidades. Até tentei resumir, mas deu não. Não sou muito objetiva. rsrs. Mas vale a pena ler porque sempre misturo meu relacionamento com esses poetas e escritores com um pouco de sua biografia. Pesquisar sobre Fernando Pessoa foi muito bom, porque finalmente pude entender o tal poema Autopsicografia e também o uso de heternônimos por Fernando Pessoa. Espero que gostem de meu conto que é meio conto, meio crônica. Qualquer hora volto com mais EU E ELES. Adoro fazer isso porque revivo o que eles marcaram em mim. Até mais...
 



 
 

 
Sonia de Fátima Machado Silva e Fernando Pessoa
Enviado por Sonia de Fátima Machado Silva em 07/08/2020
Alterado em 07/08/2020
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