Pedaços de Mim
Precisava juntar meus pedaços, escolhi as palavras...
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ÁGUAS DE VERÃO

 

Chegou o verão
e eu desci a escada do porão.

 

Descobri que ele estava quase vazio,
senti um arrepio.

 

Arrastei de lá velhos baús
cheios de sedas
e de fru-frus.

Me cansei de seus mistérios.
Já não bastam os sidéreos?

 

Havia tanto escondido na penumbra,
mas que inda me deslumbra
com seu cheiro de tempo e mofo.

 

Tentei esvaziar esse cafofo,
a ilusão de tudo eternizado
nas quinquilharias do passado:

um espelho,
um velho livro,
um vestido com rendas de bilro.

 

Por que temos essa mania
de guardar velhas coisas de algum dia?


Não bastam os espelhos tão nítidos de agora?

Mas não,
é preciso mirar-se
nos velhos espelhos de outrora.

Iludir-se que o tempo não passou
na superfície manchada
que o sulco suavizou.

 

Não bastam os livros de agora,
tão digitais?

Mas não,
é preciso entrar
pelas portas de papel,
esses rituais.

Iludir-se que essas viagens dão mais prazer
porque uma página amarelada
tem tanto pra dizer.

 

Não basta uma calça jeans desbotada,
camiseta,
rasteirinha atada?

Mas não,
iludo-me ainda
com as velhas musselinas
porque lembram-me noites tão finas.

 

Foi por isso que tentei esvaziar o porão,
embora em vão.

Mas a sátira das velhas lembranças
ainda fere
feito lanças.

 

Penso que o passado vive dentro do presente
e quanto mais o tocamos
mais se sente,

como se retornasse —
uma dívida,
velhas coisas
que o tempo revida.

 

São tantas as cicatrizes ainda vivas
e a saudade
que de viver inda me priva.

 

Eu não queria estar aqui nesse porão,
mas retornei
para rever a minha ilusão.

 

Descobri que as lembranças não se desintegram assim
e que não é fácil pôr a tudo um fim.

 

Eu quero mesmo quebrar o velho espelho?
São com essas velhas imagens
que me aconselho.

 

Quero o velho livro fechar
e as antigas histórias apagar?

 

Será que preciso rasgar o velho vestido,
e que assim tudo ficaria resolvido?

 

Não.
Penso que não quero esvaziar o porão
ainda que passem
as águas de verão.

 


 

Imagem: Microsoft Designer

Poema: Criado em 2014 e resolvi republicar. Ainda estou meio sem inspiração para poesias. Andei trabalhando foi em meu livro de genealogia. Dois anos de pesquisa e terminei ano passado. Depois vou mostrar aqui com tempo. E ainda resolvi escrever o tronco mais forte de minha família de forma romanceada. ainda estou terminando. e ainda inventei de escrever o volume 2 de meu livro EU E ELES. Também ainda não terminei.  Assim que terminar quero voltar aos poemas, pois estou com saudade, mas sem muita inspiração.

Sobre esse poema acima, tentei fazer a declamação, mas detestei, pois falando sério não sei declamar, então resolvi colocar melodia e um fiz tipo um filmezinho. Quem quiser ver e ouvir  só acessar os links abaixo:

 

https://www.youtube.com/watch?v=d7OXXzpwgEg

 

https://www.facebook.com/share/v/16zUqKbjmn/

 


 

 

Sonia de Fátima Machado Silva
Enviado por Sonia de Fátima Machado Silva em 27/01/2026
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