
Fome, quem tu és
Fome! Chega bem de manhã,
chega na hora do almoço,
da merenda e do jantar.
E eu, em um afã,
descarno algum osso,
chego o prato a rapar.
Fome! Mas às vezes tu vem,
e a panela está vazia,
não há pão no armário,
faltou o vintém.
Sem emprego, ó ironia,
o estômago cobra o fadário
Fome! Essa tua ânsia voraz,
já desnutriu corpos tantos,
já trouxe até a morte.
Por tu, diga-me, o que se faz?
Já se criou rios de prantos,
fez-se fraco o mais forte.
Fome! Por tu até já roubaram,
pegaram-se restos do lixo.
Ah, fome, quem tu és?
Que só os ricos te mataram,
na mesa farta e capricho.
O pobre, porém, ficou-lhe aos pés.
IMAGEM: Microsoft Designer
JUSTIFICATIVAS
Esse poema eu criei em 2024, especialmente parte do livro " PROSAS & VERSOS" que publiquei com recursos da Lei Paulo Gustavo, através de Edital da Prefeitura Municipal de minha cidade. Hoje resolvi publicar aqui porque ontem aconteceu uma coisa que me fez pensar na fome. Como era quarta-feira de cinza, a Igreja Católica delibera que a gente precisa fazer algum tipo de jejum como forma de controlar impulsos, vencer tentações. Eu escolhi esse não para provar nada, nem vangloriar, mas por amor a Cristo , pois sei que preciso aprender a educar minha ansiedade que me faz beliscar comida toda hora. Enfim... Pois bem, foi muito tranquilo e eu até consegui bem e durante o dia todo só comi duas fatias de pão de forma puro. Não senti fome até as 18 horas.A questão foi que fui fazer minha caminhada e queimei calorias, meu corpo logo deu sinal. Me deu uma tremedeira tão grande, a fome veio igual um leopardo que caça por dias sem encontrar nada. Pensei que não aguentava. Isso em fez pensar na fome. A gente mal aguenta 12 horas. E aquelas pessoas que comem só uma vez ao dia e às vezes nem isso. Não sabem se vão comer amanhã. como podem suportar? como o corpo aguenta? Não é sem razão que muitos morrem de fome. Esses dias li o livro QUARTO DE DESPEJO- DIÁRIO DE UMA FAVELADA, da autora Carolina Maria de Jesus, onde ela relata seu cotidiano na favela , a algum tempo atrás, nos anos 1950, e como ela lidava com a fome. Tem um trecho do livro que ela diz assim: " como é horrível levantar de manhã e não ter nada para comer. Pensei até em suicidar. Eu suicidando-me é por deficiência de alimentação no estômago. E por infelicidade eu amanheci com fome". Li o livro aos prantos e penso que nada adianta uma cestinha básica que a gente dá a alguém, mal dá para uma semana e a gente nem pode dar muito porque a aposentadoria é bem pouco. Os governos que podiam matar a fome do povo nada fazem, ficam é com picuinhas políticas sem noção. O povo que se lasque e a fome continua. Mas provavelmente eles pagarão caro por isso. E também nós que às vezes podíamos fazer nem que seja um pouquinho e não fazemos.
