
O Tempo em que a Vida Bastava:
Reminiscências Juninas
Década de 1970. Perdi a conta dos anos exatos, pois essa lembrança não pertence ao calendário, mas à eternidade da minha infância. Sei, com toda a certeza da minha alma, que era o amanhecer de um 24 de junho. O dia sagrado de São João Batista.
A fazenda da Croa despertou sem o brilho alvo de Vênus, mas a madrugada não estava desamparada. Marte reluzia soberano no horizonte, tingindo o fim da noite com um tom caloroso e magnético. Era um brilho forte, vivo, que parecia pulsar no mesmo ritmo do meu próprio peito naquela madrugada fria.
A grama gemia sob uma camada espessa e branca de geada. Lembro-me do som dos passos firmes do meu pai quebrando o gelo da relva enquanto caminhava para o curral. Sua voz ecoava mansa no escuro, chamando as vacas para a ordenha. Debaixo do enorme pé de eucalipto, elas ainda dormitavam serenas, aconchegadas e aquecidas sobre o esterco. Uma a uma, obedecendo ao chamado dele e aos latidos atentos de Bob — o cão policial que era seu braço direito —, as vacas iam se levantando aos poucos, num bocejo preguiçoso de cauda e cascos. No pastinho perto do córrego, os bezerros, apartados de suas mães, já adivinhavam a hora do desjejum. Encostavam-se na cerca, esticando o pescoço e berrando num coro choroso que clamava por amparo.
O vento nessa hora era um açoite frio e cortante. Ele assobiava dramático, balançando as copas imensas dos eucaliptos enfileirados ao lado da cerca de arame farpado, como se o próprio inverno quisesse testar nossa devoção.
Dentro de casa, porém, havia o calor do mistério. Minha mãe ia de cama em cama, tocando nossos ombros com suavidade para nos despertar. Ainda bocejando, arrastando os pés e protegidos apenas por nossos pijamas de flanela xadrez, nós nos colocávamos a postos. Cada filho segurava firme uma vasilha nas mãos trêmulas de frio. A nossa grande missão era buscar água no córrego antes que o primeiro raio de sol rasgasse o céu. Havia um pacto sagrado com a terra: a água corrente tornava-se benta antes do amanhecer de São João. Era uma corrida dramática contra o tempo para ungir a plantação. Pela trilha estreita e escura, marchavam aqueles pequenos anjos, incumbidos de carregar o milagre que faria a terra produzir bons frutos.
Íamos em procissão, em fila indiana, guiados pelo vulto protetor de mamãe. O frio era uma dor aguda; a geada machucava e queimava nossos pés calçados apenas com velhos chinelos Havaianas. Mas ninguém ousava desistir daquele ritual santo. Segurávamos o choro e apertávamos os dentes, pois sabíamos que daquela água dependia o destino do quintal: era para que as laranjas-celestes carregassem os galhos até vergar, para que as laranjas-baianas fossem doces como mel, e para que o cajueiro, a amoreira e as mexericas-enredeiras transbordassem em doçura. Até os tomates, cenouras e alfaces recebiam o batismo daquelas águas, aspergidas por nossas mãos inocentes que desenhavam cruzes no ar, crentes na força daquela fé pura.
Só depois de cumprida a promessa é que o corpo relaxava. Minha mãe corria para a cozinha para coar o café, enquanto nós, buscando desesperadamente o calor, nos amontoávamos no rabo do fogão a lenha, apertados e encolhidos como uma ninhada de gatinhos recém-nascidos. Quando o aroma do café subia, ela servia uma porção generosa no copo de cada um.
Lá íamos nós outra vez, em uma nova e solene procissão rumo ao curral. Mamãe caminhava atrás, equilibrando com maestria uma caneca de café fumegante em uma das mãos e, na outra, um pito de palha aromático que ela mesma havia enrolado, com todo o carinho, para o meu pai. No curral, o quadro era de um romantismo rústico inesquecível. Meu pai interrompia a ordenha, limpava as mãos na calça e pegava o copo de cada filho. Com um movimento preciso, puxava a teta da vaca e enchia nossos copos com o leite espumante e morno, direto da fonte. Depois, seus olhos encontravam os de mamãe. Ele recebia o pito de palha das mãos dela com um sorriso terno, daqueles que dizem tudo sem precisar de palavras. Dava uma tragada demorada, soltava a fumaça branca no ar frio e tomava o café de uma vez.
Aquele leite com café, tomado ali mesmo, pisando no chão do curral, era o nosso único sustento até a hora do almoço, que só viria por volta das dez da manhã. Mas para o meu pai, o trabalhador que sustentava o mundo nas costas, mamãe guardava um desjejum especial após a lida: às vezes um torresmo estalando com farinha, às vezes um ovo frito também com farinha de mandioca.
O dia então ganhava vida própria. Cada um encontrava seu afazer no compasso da fazenda: ajudar a varrer o terreiro até deixar o chão limpo, lavar roupas batendo-as nas pedras do córrego, prensar o queijo fresco ou simplesmente correr e brincar sob o sol que finalmente esquentava. O destino do meu pai era o roçado ou a quebra do milho seco, que logo seria trazido no Carro de Boi, cujo cantar choroso e dramático ecoava pela propriedade, anunciando que o paiol seria abastecido. Naquele tempo de inverno, ele também moía canas para a rapadura e arrancava mandioca para o polvilho.
Mas não no dia de São João. Nesse dia, o trabalho cedia espaço ao sagrado. Meu pai dedicava-se a buscar as melhores lenhas para a grande fogueira, que ele armava com capricho logo depois do pátio da sala. Enquanto a tarefa da esposa e filhos era cuidar da unção das plantas, a dele era erguer o monumento de madeira onde queimaríamos o incenso da fartura.
Após o jantar, que acontecia no início da noite, por volta das dezessete horas, a ansiedade virava um aperto bom no peito. Contávamos os minutos, observando o sol descambar lentamente para os lados do Rio Paranaíba. Quando o arrebol tingia o horizonte de sangue e ouro, e o manto azul-escuro da noite descia sobre a fazenda, meu pai aproximava-se da fogueira. Com as mãos calejadas, ele ateava fogo nas palhas secas escondidas entre as madeiras. As chamas subiam altas, iluminando nossos rostos maravilhados.
Em seguida, num gesto carregado de mistério, ele buscava na cozinha um copo cheio de grãos: feijão, arroz, milho e farinha. Diante do fogo que estalava, ele lançava os grãos nas chamas como uma oferenda ao céu. "É para que no ano que vem a colheita seja farta", ele dizia, com os olhos brilhando no reflexo do fogo. E a profecia se cumpria. Nunca, jamais nos faltou o pão. Quando as novas colheitas chegavam, a madeira das tuias ainda chorava de tanto cereal estocado, e o polvilho e a farinha sobravam nas sacas de estopa.
O tempo, esse rio implacável, passou. Meus pais recolheram suas ferramentas e partiram para junto de Deus. Nós, os filhos, fomos espalhados pelos ventos da vida, cada um seguindo seu rumo. As crenças antigas parecem ter se perdido pelo caminho, soterradas pela frieza da modernidade tecnológica.
Mas não há um único dia 24 de junho em que eu não feche os olhos, sinta o frio rasgar a minha pele e me transporte de volta para aquele chão de terra. Minha alma chora de saudade, mas sorri de gratidão, ao lembrar de como era infinitamente bela e doce a inocente essência da nossa vida.
Dedico estas linhas aos meus pais, que hoje habitam as estrelas, e aos meus irmãos, que dividiram comigo o frio daquela geada e o calor daquele fogão. Uma lembrança viva da essência que nos formou. Que este texto seja um ponto de parada e silêncio para os nossos corações na correria dos dias de hoje. Nossa história é o nosso maior tesouro.
IMAGEM : criada no ChatGpt através de meu prompt: meus pais e seus seis filhos.
