
Capa do livro
Este livro narra o tempo em que mãos exaustas de evitar tombos alheios encontraram na escrita uma forma de cura. Não é apenas um registro sobre o alcoolismo e suas perdas, mas também sobre a luz que teima em iluminar os escombros. É o testemunho de quem decidiu atravessar a tempestade e, contra todas as expectativas, construir o próprio chão.
Depois de mais de 10 anos decidi finalmente escrever sobre essa fase de minha. Esse processo foi como um processo de cura. Embora ainda continue com um pé atrás, posso dizer que me libertei da dor dessa experiência. Vou lançar o livro na FLICORÓ, o primeiro Festival Literário de minha cidade esse final de mês. Acredito que a experiência narrada possa ajudar muitas pessoas que passam pelo mesmo problema.
Eu quis compartilhar aqui porque, apesar de andar sumida, aqui é um lugar para onde sempre volto com saudades.
Vou trazendo os capítulos aos poucos.

Imagem criada no Google IA
1
O silêncio e as páginas
Escrever sobre o caminho que me levou ao meu esposo e, consequentemente, ao desafio do seu alcoolismo, exige que eu volte no tempo. É preciso entender a menina que eu era para compreender a mulher que me tornei.
Tudo começou de verdade em 1980. Eu tinha dezesseis anos e a roça era o meu mundo. Meus estudos haviam estacionado na quinta série; naqueles tempos, para pais de poucos recursos, manter filhos estudando na cidade era um luxo inalcançável. Rendi-me às exigências do meu pai e, aos poucos, o cheiro da terra e a rotina do campo calaram meus sonhos de escola.
Mas havia uma alegria única naquela vida: montar o Alazão. Eu amava o vento no rosto quando saía a galope pelas estradas e campos para buscar as vacas no pasto. Naqueles momentos, sobre o dorso do belo cavalo castanho-avermelhado escuro, lembrando a cor de café torrado, eu sentia uma liberdade absoluta, como se o mundo fosse infinito e eu pudesse voar sobre o capim.
Eu conhecia cada músculo do Alazão, e ele parecia entender o meu desejo de fuga antes mesmo de eu apertar as rédeas. O cheiro de suor do animal misturado ao capim estalado pelo sol era o perfume da minha independência. Naquelas cavalgadas, eu não era a filha que obedecia ou a menina que parou de estudar; eu era parte daquela natureza bruta, tão indomável quanto o horizonte que eu perseguia.
Lembro-me de um dia específico, indo buscar as vacas. Assim que a estrada fez a curva e sumi das vistas da casa, não resisti: esporeei o Alazão e voamos qual o vento. Mas o que eu não esperava era que meu pai, lá longe, na lavoura de milho da várzea perto do Paranaíba, estivesse me observando. O grito dele cortou o ar, seco e autoritário: — Para agora!
Estaquei o cavalo na hora. O coração batia mais forte que o galope. Eu havia desobedecido a ordem de nunca correr, e naquele silêncio que se seguiu ao grito, entendi que a minha liberdade tinha limites bem definidos pela vontade dele. Naquele instante, aprendi que crescer também era medir o tamanho do próprio passo. A terra era vasta, mas eu não era. Havia cercas invisíveis que não estavam fincadas no chão, mas dentro de casa. E eu começava a entender que obedecer era, muitas vezes, a única forma de permanecer.
No entanto, essa mesma terra que me dava asas parecia traçar meu destino no chão: casar-me com um moço das redondezas, de preferência um fazendeiro de posses, como meu pai tanto sonhava.
Cheguei a ensaiar esse destino. Em julho de 1978, numa quermesse de capela, eu de vestido verde com florzinhas miúdas, chamei a atenção daquele que seria o meu “partidão”. É verdade que tinha um nariz grande. Mesmo assim aquele moço era o sonho das garotas. E eu fui a escolhida.
Eu não queria que aquela noite acabasse. Dançamos a noite toda, e a cada giro, a cada passo, parecia que estávamos em nosso próprio mundo, alheios a tudo que nos cercava. Era a magia do momento, da música e da nossa conexão, apesar de ele ser oito anos mais velho e eu, uma menina de quinze.
O namoro seguia o ritmo lento das estradas de terra. Uma vez por mês, no final da tarde de sábado, eu o avistava descendo o espigão a cavalo. O coração disparava e eu corria para me ajeitar, trocando a roupa da lida. Ele pernoitava em nossa casa. Naquela época, o silêncio da noite era quebrado pelo estalar característico dos colchões de palha de milho, que faziam um barulho danado a cada movimento. As cobertas, pesadas e acolhedoras, eram de lã ou algodão, tecidas no tear pelas mãos habilidosas de minha mãe.
Ele só partia no domingo, bem depois do almoço que minha mãe esmerava em preparar. O perfume do frango ao molho de açafrão tomava a cozinha, acompanhado da mandioca cozida derretendo e do tutu de feijão caprichado.
Depois do almoço, o tempo parecia esticar-se. Ficávamos na sala, onde o sol do meio-dia desenhava sombras compridas através da janela. Era um namoro de poucas palavras e muitos olhares vigiados. O rádio de pilha, às vezes, sintonizava alguma estação distante que trazia músicas de saudade, preenchendo o vazio entre nós. Eu olhava para as mãos dele, calejadas da lida, e tentava imaginar se aquelas mesmas mãos seriam as que escreveriam o resto dos meus dias.
Namoramos quase dois anos. Vivi o rito das moças da época: debruçada sobre enxovais, bordados e crochês, costurando um futuro que eu achava que era meu. Mas o namoro terminou em maio de 1980, no pátio bem ao lado do pé de manacá já começando a florir. Um contraste com minha dor. E depois ele ainda saiu dizendo a outros que eu era tímida demais. De fato, eu era. Um beijo meu era conquista para promessa de santo.
Os dias que se seguiram ao término foram longos e cinzentos. Eu olhava para as peças do enxoval que já estavam prontas — os bicos de crochê impecáveis, os bordados para cada semana em ponto atrás feitos com tanto zelo — e sentia uma vontade imensa de desmanchar tudo, como se ao desfazer os nós das linhas eu pudesse também desamarrar a angústia no meu peito. Cada ponto que eu havia dado com alegria agora parecia um lembrete do que não seria mais. Minha timidez, que ele usou como desculpa, tornou-se meu refúgio e meu silêncio. Sofri. Sofri como se o mundo acabasse ali, entre linhas de meada e panos de prato.
Para curar a dor, comecei a cantar. Enquanto lavava louças e roupas, minha voz ecoava as cem músicas de MPB que decorei. Minha mãe se desesperava com a cantoria sem fim, mas um ajudante do meu pai sorria e dizia que, um dia, se casaria comigo. Mal sabia ele que o destino já estava manobrando o caminhão da mudança.
Meu irmão precisava estudar na cidade, e alguém precisava cuidar dele. Por uma dessas ironias da vida, meus avós haviam se mudado para Uberlândia e o velho casarão da família em Coromandel — o lugar onde nasci — ficou vazio. Com suas paredes azul-claro e janelas enormes pintadas de um rosa escuro e decidido, a casa me esperava.
A partida foi um trauma. Deixei a roça chorando, sentada na carroceria de um caminhão de leite. Lembro-me do metal frio das latas, da poeira da estrada que grudava no rosto misturada às lágrimas, e da sensação de que eu estava sendo arrancada de mim mesma. Eu não sabia ainda, mas aquela estrada de poeira não levava apenas à cidade — levava ao fim da menina que corria livre pelos pastos. Cada quilômetro percorrido parecia apagar um pedaço da roça dentro de mim, como se o barulho do caminhão estivesse abafando, pouco a pouco, o som dos cascos do Alazão.
Ao chegar ao casarão, minha voz emudeceu. Parei de cantar. O silêncio da cidade me assustava, assim como o assoalho que rangia sob meus pés. O casarão era imenso, cheio de sombras e mistérios. Eu tinha um medo visceral de andar por ele à noite; o banheiro era longe do quarto, e cada travessia pela sala acima do porão me dava arrepios. Mas o medo maior eu venci pela curiosidade.
Ao lado da rampa que saía da cozinha, havia o tal porão. Venci o pavor e comecei a “fuçar” as velhas caixas esquecidas. Ali, encontrei meu novo mundo: os livros de faroeste do meu tio e os romances da minha tia. As páginas amareladas dos livros traziam um cheiro de mofo que, para mim, tornou-se o aroma da aventura. Eu lia até que a vista cansasse sob a luz fraca, transportando-me para desertos e saloons que eu nunca veria. Foi ali, entre os heróis de papel e as mocinhas dos romances, que entendi que as palavras tinham o poder de criar saídas onde só havia paredes. Comecei, sem perceber, a escrever dentro de mim. Antes mesmo de colocar palavras no papel, eu já organizava sentimentos em silêncio, como quem dobra cuidadosamente um tecido antes de costurá-lo. A literatura não me salvou do mundo, mas me ensinou a atravessá-lo.
Quando devorei todos eles, descobri o caminho da biblioteca municipal. Eu não cantava mais, mas minha mente gritava a cada página lida.
Nesse ano também me envolvi em aprender Corte e Costura. Meu pai comprou uma máquina de costura e contratou D. Escolástica para me ensinar. As aulas aconteciam na casa de uma vizinha do velho casarão, prima distante de meu pai. Foi uma mão na roda. O silêncio da leitura agora era intercalado pelo ritmo da agulha perfurando o tecido. Todas as tardes eu tinha o que fazer além de ler faroeste e romance; entre linhas e agulhas, eu começava a alinhavar uma nova versão de mim mesma.
D. Escolástica era paciente, e o barulho da máquina de costura — aquele “taca-taca” constante e ritmado — funcionava como uma terapia para meus pensamentos inquietos. Eu aprendi a observar as curvas dos moldes e a precisão do corte, entendendo que, na vida como no tecido, se a gente errar o traço, precisa ter coragem para recomeçar a costura. Entre um ajuste de barra e uma pence bem feita, eu ia deixando para trás a poeira do caminhão de leite e me vestindo de uma nova coragem, ainda que silenciosa.
Assim, 1980 foi o ano em que me perdi de quem eu era para me encontrar na literatura e na costura. Não me passava pela cabeça voltar aos estudos; o casarão e os moldes de papel pareciam ser o meu destino final.
Até que minha tia e madrinha, percebendo que eu precisava construir outros conhecimentos, decidiu intervir. Tirou-me do meu isolamento entre livros, linhas e paredes azul-claro. Em 1981, ela conseguiu uma vaga para eu voltar a estudar no período noturno.
Eu não sabia, mas ao aceitar aquela vaga, eu estava assinando o meu encontro com o destino. A menina que saiu da roça chorando sobre latas de leite estava prestes a atravessar o portão da escola para encontrar o homem que mudaria sua vida para sempre.
LINK DO LIVRO À VENDA
https://clubedeautores.com.br/books/search?where=books-search&what=resgate+do+abismo
